sábado, 16 de outubro de 2010

Entrevista

Entrevista: A entrevista se caracteriza pelo diálogo entre o repórter e a fonte, sob a forma de perguntas e respostas, para obter informações. Entrevista noticiosa é aquela que tem como eixo a informação; entrevista de caráter é aquela que tem como eixo a personalidade do entrevistado. Pode acontecer ao vivo ou pode ser gravada para ser reproduzida mais tarde. A vantagem da entrevista é uma maior credibilidade dos fatos e a uma maior aproximação do radiouvinte com o fato.


Ex 01:

“O CINEASTA QUER ENTENDER QUE PAÍS É ESTE”


Um dos atores mais premiados do cinema, teatro e televisão, Wagner Moura recebeu a Caros Amigos em sua produtora, no Jardim Botânico, bairro acolhedor da zona sul carioca.


Por: Bruna Buzzo, Carolina Rossetti, Leandro Uchoas, Luciana
Chagas, Marcelo Salles, MC Leonardo e Sheila Jacob. Fotos: Ângelo Cuissi



Nesta entrevista ele fala sobre sua infância em Rodelas, no sertão baiano, a timidez que lhe valeu o apelido de OVNI numa escola de Salvador, os primeiros passos no teatro e a vinda para o Rio de Janeiro – de onde passou a fazer trabalhos reconhecidos internacionalmente.

Com entusiasmo, defende a importância de Tropa de Elite e fala sobre a montagem de Hamlet e a produção do filme Tropa de Elite 2, que vai abordar a questão dos grupos criminosos formados por policiais, vulgarmente conhecidos como “milícias”. O ator comenta ainda o cercamento, com muros, das favelas do Rio, uma iniciativa conjunta do governo estadual e de empresas privadas.

Marcelo Salles -
Wagner, a gente sempre começa pedindo para o entrevistado falar desde a infância, como foi sua criação, seus pais, em que cidade. E aí a gente vai desenvolvendo...

Meu pai é militar da reserva, da aeronáutica. Serviu 32 anos, era sargento. Veio de Rodelas, interior da Bahia, com dezessete anos, no pau-de-arara, como os nordestinos que vêm para ser porteiros, trabalhar na construção civil. Até que entrou como soldado para a Aeronáutica, fez carreira militar, mas a onda dele era estudar. Durante esse tempo ele conseguiu estudar Direito e se formar. Nunca exerceu. Se formou e falou: sou doutor. Eu nasci em Salvador, a minha mãe também é baiana de Rodelas, era dona de casa. Meu pai tinha sido transferido do Rio para Salvador, fiquei lá dois anos, aí ele foi transferido de volta para o Rio. Morei cinco, seis anos em Marechal Hermes [bairro da Zona Norte da capital fluminense]. Fui alfabetizado aqui no Rio, tenho irmã mais nova, médica pediatra de UTI. Meu pai é bem mais velho que minha mãe, tem 73 anos, e sempre foi um nordestino saudoso, desses que ficam ouvindo Luis Gonzaga em casa, e choram, querendo voltar. Quando fechou o ciclo dele, quis voltar para Rodelas, voltamos todos pra lá, isso nos anos 80.

Luciana Chagas –
Isso foi um pouco antes da enchente?

Um pouquinho depois, na verdade. A enchente foi em 88, e a gente se mudou em 89 para Salvador. Isso é um negócio que está gravado na minha cabeça de uma forma violenta...

Luciana Chagas – A perda da cidade natal é uma referência?

Rapaz, não. Pra mim, criança, eu achava um barato aqueles peões na cidade, as casas quebradas. Ficava brincando naqueles escombros, lama, mas eu me lembro das pessoas, mais velhas principalmente, sem entender o que estava acontecendo.

Luciana Chagas –
Você estava com quantos anos aí?

Nove, dez anos. Tinha uma coisa religiosa muito forte. Eu me lembro da mudança do santo padroeiro da cidade, Santo Antônio, da cidade velha para a nova. Foi uma coisa que antropologicamente era muito forte. As pessoas todas cuidando daquele santo, daquela imagem. Eu me lembro que o santo bambeou, parou, aí uma senhora gritou “São João Batista quer que caia!”, aí todo mundo “quer que caia, quer que caia!”. Lembro da minha mãe chorando. A cidade velha de Rodelas era muito bonita, pequena, tinha três ruas só. Todo mundo se conhecia, qualquer adulto tinha autoridade sobre qualquer criança, você sabia quem era filho de quem. A brincadeira das crianças era no rio São Francisco, nas árvores, nas ruas. E a cidade nova é uma cidade feia, padronizada, com as casas todas iguais. É um negócio muito violento. O teatro que me salvou.

Marcelo Salles –
Como é que foi o seu encontro com o Teatro?

Então, eu era esse cara que não tinha nenhum amigo, muito só. Meu apelido na escola era OVNI, sentava sozinho. Eu não me sentia incluído, não me sentia parte daquilo, sabe? Quando eu comecei a fazer teatro eu tinha quatorze, quinze anos. E musicalmente Salvador era, no início dos anos 90, uma ditadura do axé. Nenhuma rádio tocava outra coisa, e os jovens eram muito fascinados por essa cultura do axé, de ir pra festas e pegar menininhas, de pegar o carro do pai. Aqueles blocos de carnaval sectários, onde uma pessoa preta não pode entrar, uma pessoa feia não podia. Eu era muito só, ficava em casa, estudando. Aí eu estava na escola e uma menina chamada Micheline, que era mais velha e fazia parte de um grupo de teatro, num lugar chamado Casa Via Magia, na Federação [bairro de Salvador]. Fazendo aquelas peças na escola ela achou que eu levava jeito, e me levou. Lá eu fiquei encantado e não parei nunca mais.

Leandro Uchoas –
Como esses personagens da sua infância alimentam a construção dos seus personagens hoje?

O homem, o artista que eu sou é entranhado disso. Eu sou esse cara que veio dali. Meu DNA é esse. Então um jeito de eu fazer Shakespeare é entranhado dessa minha... A forma como eu leio uma peça dinamarquesa, a porta de entrada é minha percepção, minha cultura.

Luciana Chagas –
Acho que ainda em Salvador você poderia falar sobre a banda.

Eu saí de uma escola e fui para uma outra que estava começando. Aí eu conheci Gabriel, meu parceiro que foi cover do The Cure, depois incorporou essa melancolia de música de puteiro, bodegas, de compositores que eu admiro muito que fizeram alegria, compõem de forma apaixonada, sem medo de parecer isso ou aquilo.

Bruna Buzzo – Isso foi com quantos anos?

Quinze, dezesseis. Odair José, Fernando Mendes, Reginaldo Rossi, o próprio Roberto Carlos, Diana, Amado Batista, uma galera que eu escutava muito. Não tem aquele rebuscamento que Chico Buarque tem, mas tem uma beleza, uma coisa singela, brega assim. Olha, eu não tenho vergonha de dizer: “eu te amo! Vou tirar você desse lugar” [cantarolando].

Bruna Buzzo – Como estava sua carreira no teatro nessa época?

O auge do teatro baiano, desde a fundação da Escola de Teatro nos anos 50, até hoje, foram os anos 90. O governo da Bahia investia, as secretarias de Cultura e Turismo andavam juntas, hoje em dia é separado. E o turismo na Bahia dá muito dinheiro. Havia um dinheiro mais disponível e havia uma interação dos artistas do teatro baiano, principalmente depois do sucesso da Bofetada, no final dos anos 80, de produzir coisas assim. Então Fernando Guerreiro, Paulo Dourado, Márcio Meireles, foram os diretores que criaram as melhores coisas nos anos 90. Foi quando eu apareci, apareceu Lázaro Ramos, apareceu Vladimir Brichta, Fábio Lago, uma série de atores de Salvador. Foi ai que o João Falcão me viu fazendo uma peça e me chamou para fazer A Máquina e aí fiquei.

Marcelo Salles – E em termos de cinema nacional, como você está vendo?

Outro dia eu vi uma entrevista com o diretor de Cannes, disse que cinema brasileiro é o cinema do futuro. Eu acho que tem ótimos cineastas, ótimos técnicos, ótimos atores, eu vejo com super bons olhos. E estamos sendo respeitados nos festivais internacionais, os grandes, Berlim, Veneza, sempre tem filme brasileiro lá, se não na mostra oficial, nas paralelas, estão sendo vendidos os nossos filmes lá.
Fonte: www.carosamigos.com.br

Ex 02 :

Em entrevista, Daniel Peixoto, o ex-vocalista da banda Montage conta um pouco sobre sua carreira e suas influências músicas:

1- Como você iniciou a sua carreira musical? Como se uniu ao Montage?
Começei na música quando criança cantando em coral. Depois estudei alguns instrumentos mas deixei a musica um pouco de lado pra me dedicar a moda e tv, o montage so apareceu na minha vida no fim de 2004, quando começei a trabalhar com o Leco Jucá no meu antigo programa de tv, o asterisco, ainda em Fortaleza.
2- O som que você fazia na banda Montage é um pouco diferente do som que faz agora em carreira solo. O que mudou? Como você define esse ritmo que vem produzindo?
Mudou tudo, as letras, o conceito, o som. O montage fazia electro punk, e eu estou agora muito mais voltado pras vertentes tropicais da música. Misturar o pop e o electro a rítimos como samba, forró e até o tecnobrega do Pará. Tenho pirado nisso.

3-Quais foram as influências musicais que essas suas novas produções receberam?
Eu sempre curtí muito trip hop e quem conhece bem esse estilo vai ver que tem muito dessa sonoridade criada pelo Massive Attack. Também fui atras das minhas raizes cearenses e tentei misturar coisas que eu ouço desde de criança com estilos mais contemporaneos. E como se você misturasse Chemical Brothers com Irmãos Anicetos. (risos)
4- Você cantou na parada gay de Sao Paulo a música "Sinta o amor em mim" que trata da homofobia. Percebe-se que você se identifica bastante com o público gay. Então, qual a sua ligação com a militâncias das causas LGBTT?
Eu nunca tinha falado de politica e causas militantes em nenhuma música minha. Recebí o convite do produtor musical Paulo Figura e topei, escrevemos a letra juntos e ficou bem bonito o resultado, na parada a resposta do publico foi automatica, positivamente falando. Virou coro! Eu sempre pensei que minha mititancia eu faria de outra forma, sem bandeira do arco iris, mas cantando de vestido e maquiado por exemplo e qualquer lugar, isso ja é uma forma de protesto!
5- Agora você tem um blog dentro do site da MTV. Como tem sido essa experiência?
Estou decidindo que rumo dar a esse blog, e aproveitar o bom numero de acessos, mas quero que ele sirva como um elo entre eu e meu publico. Lançei o clipe de Come to me lá e pretendo lançar o single de remixes tambem. Acredito que quando lançar meu disco vou ter mais tempo pro blog.
6-Com qual artista da música você gostaria de fazer uma parceria?
Muitos, pode sonhar? Madonna, Massive Atack e David bowi. Acho que ta bom.

7- Quando você vem fazer um show aqui na Bahia? Nós estamos loucos para te receber.
Assim que vocês me chamarem.

Reportagem

Reportagem:Segundo José Marques de Melo, a reportagem é o relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no organismo social e produziu alterações que são percebidas pela instituição jornalística. Engloba a pesquisa, a entrevista e a seleção de dados relacionados à mensagem a ser veiculada. É uma noção mais aprofundada a respeito do fato narrado.


Ex 01: O genocídio surreal dos Guarani-Kaiowá

O maior grupo indígena do país luta para escapar do extermínio, enquanto o fim do governo Lula consagrará um atraso de dezessete anos na demarcação de suas terras.

Por
Joana Moncau e Spensy Pimentel

Imagine um lugar onde as pessoas têm expectativa de vida inferior à de países africanos em guerra, onde a taxa de assassinatos é semelhante à dos bairros mais violentos de metrópoles como São Paulo e Rio, e onde as taxas de suicídio estão entre as maiores do mundo. Imagine uma situação de racismo tal que você não pode frequentar um hospital, delegacia ou escola, nem ouvir a rádio, assistir às TVs ou ler os jornais sem ser humilhado cotidianamente. Imagine mais: além disso tudo, essa é a terra onde você nasceu, mas que lhe foi retirada à força por pessoas que se instalaram ali com o apoio do governo do seu próprio país, obrigando-o a se refugiar no país vizinho para sobreviver. E, se não bastasse tudo isso, quando você tentou voltar para recuperar o que era seu por direito, foi tachado de estrangeiro.

Esse lugar surreal fica no Brasil, no sul de Mato Grosso do Sul. Tal quadro permaneceu, por muitos anos, praticamente desconhecido da grande maioria dos brasileiros. Agora, cada vez mais, o drama dos Guarani-Kaiowá vem chamando a atenção do restante do país e da comunidade internacional, e o presidente Lula encara o desafio de apresentar, até o fim de seu governo, em dezembro, um avanço real na solução dos problemas desses indígenas, sob pena de o país completar dezessete anos, e mais de quatro mandatos presidenciais, sem resolver o problema. A Constituição de 1988 determinou que a demarcação das terras indígenas seria concluída em cinco anos depois da promulgação da Carta.

Só em 2010 foram quatro os relatórios internacionais que sublinharam a questão. Primeiro, um documento lançado em janeiro pelas Nações Unidas. Depois, um relatório produzido pela ONG Survival International exclusivamente para tratar do tema, lançado em março. “A ocupação e usurpação de suas terras pela indústria e ações governamentais têm resultado uma situação desesperadora”, aponta o texto da Survival. E complementa: “A situação dos Guarani no MS é uma das piores entre todos os povos indígenas da América”. Em abril, a ONG Repórter Brasil também denunciou, no Brasil e na Europa, a ocupação de terras kaiowá já reconhecidas por lavouras de cana (ver o próximo texto). Em maio, a Anistia Internacional, em seu relatório anual, destacou o caso ao falar dos direitos indígenas no país.

Enquanto a crise se agrava, outros estão mais preocupados com o sagrado direito à propriedade. “Confesso que, em Dourados, voltei a sentir medo”, afirmou a atriz Regina Duarte em visita a uma exposição agropecuária na cidade, em 2009. Na ocasião, a atriz global, pecuarista e garota-propaganda de José Serra nas eleições de 2002 mostrou-se solidária aos fazendeiros diante da “ameaça” das demarcações de terras. “O direito à propriedade é inalienável”, explicou.

Por outro lado, têm sido cada vez mais frequentes as manifestações de entidades e personalidades em apoio à causa dos Guarani-Kaiowá. No início do ano, em carta, a senadora Marina Silva (PV-AC) alertou Lula para o “grau extremo da crise humanitária” pela qual o grupo passa atualmente. Em março, após visita ao MS, o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Dimas Lara Barbosa, também enviou carta a Lula, pedindo agilidade nas demarcações das terras indígenas desses indígenas. Ainda em março deste ano, uma missão do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, órgão de Estado ligado à Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) foi avaliar a situação para fazer uma série de recomendações ao governo federal.

O presidente Lula já discutiu o caso guaranikaiowá por pelo menos três vezes só este ano. Em fevereiro, chegou a declarar a políticos e fazendeiros que iria providenciar a compra emergencial de terras para os indígenas. Depois, em junho, assistiu a exposição sobre o problema em reunião da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), órgão ligado à Funai que reúne representantes dos povos indígenas de todo o país. Em agosto, em visita a Dourados (MS), ele se reuniu a portas fechadas com lideranças do grupo e reiterou o compromisso de avançar na resolução do problema até o fim de seu mandato. Também em agosto, centenas de lideranças indígenas de todo o país expressaram seu apoio aos Guarani-Kaiowá com a realização do 7° Acampamento Terra Livre em Campo Grande.

A terra é o ponto nevrálgico da discussão: todos os observadores externos percebem a extrema necessidade de ampliar as áreas disponíveis para as comunidades. Ao mesmo tempo, todos os adversários dos indígenas se opõem, exatamente, às novas demarcações. Em 2008, após assinar um Compromisso de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público Federal, a Funai lançou seis grupos de trabalho de identificação das terras guarani-kaiowá, abrangendo 26 municípios do Cone Sul do MS. A ideia era resolver, de uma vez por todas, o déficit na demarcação de terras ali.

O resultado da iniciativa é que o conflito com os ruralistas tornou-se ainda mais forte e evidente. “Produtores declaram guerra aos índios”, destacaram as manchetes locais na época. Para essa situação atentou outro relatório da ONU, de 2009. O relator especial James Anaya, que visitou o estado, escreveu: “Tensões entre povos indígenas e colonos não indígenas têm sido particularmente frequentes no MS, onde os povos indígenas sofrem pela falta de acesso às suasterras tradicionais, pela extrema pobreza e pelos problemas sociais daí decorrentes; a situação deflagrou uma série de atos violentos, marcados por grande número de assassinatos de índios, bem como pela perseguição criminal aos indígenas que lutam por esse direito”.

Enquanto isso, o problema era minimizado pelo próprio governador do estado, André Puccinelli (PMDB). Em abril de 2009, ele afirmava: “Eles não querem tanta terra como a Funai quer dar a eles. Os índios querem menos terra e mais programas sociais”. Edite de Souza, sobrinha de Marçal de Souza, um dos mais famosos líderes guarani, assassinado em 1983, retruca: “É mentira do governador! Ele não faz reunião com os indígenas, como é que ele vai saber se nós queremos ou não a terra? Nós queremos a terra!”.

Na época, Puccinelli ameaçava, em caso de prosseguimento dos trabalhos da Funai: “Muitas vidas (de índios e não índios), possível e infelizmente, poderão se perder, tendo em vista o inevitável conflito que se estabelecerá entre os envolvidos”. O deputado estadual Jerson Domingos foi ainda mais enfático. Anunciou que poderia haver um “banho de sangue”.

Faceta mais sutil da luta contra as demarcações de terras indígenas é a “teoria da conspiração” difundida inclusive na imprensa nacional. O filósofo gaúcho Denis Lerrer Rosenfield vem publicando artigos contra os Guarani desde 2008, quando chegou a passear pelo MS dando entrevistas como consultor dos fazendeiros. Para ele, as demarcações escondem a intenção de articular um movimento separatista.

O efeito prático de ações como essa é alimentar preconceitos. “Há entre a população sul-matogrossense uma postura claramente anti-indígena. Isso, infelizmente, é dito pelo governador, passando pelos deputados e os veículos de comunicação”, aponta o procurador da República Marco Antonio Delfino, de Dourados.

Em 2008, chegou-se a dizer que um terço do estado seria transformado em terra indígena, semeando pânico na população. Ao contrário do que o alarmismo de alguns latifundiários quer fazer crer, as terras reivindicadas nesse estado, segundo avaliações preliminares dos antropólogos, não chegam a 1 milhão de hectares, ou seja, menos de um décimo do que se apregoava na época – a extensão exata só poderá ser aferida quando os estudos determinarem, afinal, as áreas reivindicadas pelos índios.

Dor invisível
O problema é antigo, mas, mesmo se considerarmos apenas os números do ano passado para cá, o quadro já seria desesperador. Foram registrados ao menos quatro casos graves de conflitos envolvendo as comunidades de Laranjeira Nhanderu, Kurusu Ambá, Mbaraka’y e Ypo’i.

O resultado: pelo menos três mortos, dois desaparecidos e cinco baleados, além de diversos episódios de espancamentos, atropelamentos suspeitos e pelo menos um acampamento de beira de estrada incendiado. Um quinto caso registrado nesse período não está, aparentemente, relacionado à questão da terra, porém, talvez seja o mais sintomático da situação dos Kaiowá: em setembro de 2009 o acampamento da comunidade de Apykay, instalado na beira da BR-463, foi incendiado, e um indígena foi baleado. O crime configurou tentativa de genocídio e o inquérito está em tramitação.

“A motivação pelo ataque em Apyka’y não foi uma motivação em defesa da propriedade, foi uma motivação inteiramente étnica, ‘vamos atacar os índios porque são índios’. Ou seja, há uma tentativa de exterminar parte de um grupo indígena que se caracteriza como um tipo de genocídio”, explica o procurador Delfino. “A sociedade sul- matogrossense nega que exista o índio, diz que na verdade quem está lá são os paraguaios, isso é a invisibilização da comunidade.”

Esses seres “invisíveis”, entretanto, formam o maior grupo indígena do Brasil: são 45 mil pessoas. A dificuldade de enxergá-los como “índios”, em parte, decorre da miséria a que estão submetidos. Os Guarani-Kaiowá vivem em pequenas “ilhas” de terra que, somadas, alcançam pouco mais que 42 mil hectares – compare-se com o 1,7 milhão de hectares da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, onde vivem 20 mil pessoas. Acossados pelos fazendeiros, rodeados por pastagens e plantações de soja e cana, sem terra, nem mata – da mata original ali não restam mais que 2% –, lutam a duras penas para sobreviver.

Sintomas desse ambiente desfavorável são os problemas apontados nos relatórios citados. Levantamentos do Cimi indicam que ocorrem ali mais da metade dos assassinatos registrados entre indígenas em todo o país – foram 33, dos 60 anotados em 2009, e 42, também de 60, em 2008. Grande parte deles são conflitos entre as famílias indígenas, acentuados pela escassez de recursos e comida, mas há também vários crimes de perseguição política. Segundo o MPF, atualmente correm processos referentes a 13 conflitos mais graves envolvendo indígenas de áreas não demarcadas e proprietários de terra, desde 2000.

Também há alto índice de suicídios, principalmente entre jovens. Só em 2008, foram 34 casos. Em 2009, 18. A taxa de suicídios, portanto, em determinados anos, pode chegar a mais de 100 por 100 mil habitantes, contra a média nacional de 5,7 por 100 mil, segundo dados da Fundação Nacional de Saúde.

Sem possibilidade de viver da coleta, caça ou plantio, ainda segundo a Funasa, 80% das famílias dependem da distribuição de cestas básicas. Quando, em 2007, o serviço de fornecimento foi suspenso temporariamente, sete crianças morreram de subnutrição no estado, onde o índice de desnutrição infantil em populações indígenas é o mais alto do Brasil.

Com tudo isso, a expectativa de vida entre os Kaiowá é de 45 anos, quando a média brasileira é de 72,7 anos. Aos que sobrevivem, resta buscar trabalho, muitas vezes em condições irregulares, nas usinas e fazendas da região (veja matéria a seguir), ou a mendicância nas cidades. Sempre enfrentando muito preconceito.

A discriminação racial é tão comum quemesmo figuras públicas não têm nenhum pudor em externá-la. Em março de 2008, foi aprovado na Câmara Municipal de Iguatemi (MS), o pedido de um vereador para que “intervenham junto à Funai para resolver o problema das residências ilegais dos diversos indígenas na cidade”. “Tal indicação se faz necessária”, dizia o pedido, tendo em vista que os indígenas “vivem embriagados, vivendo da coleta e sobras de lixo”. E continuava: “É uma vergonha para nossa cidade deixar esta situação exposta aos olhos de futuros investidores e empresários”.

Outro caso grave foi o artigo publicado pelo advogado Isaac Barros, em 2008, no maior jornal da região de Dourados. Intitulado “Índios e Retrocesso” o texto levou o MPF a ajuizar ação criminal por racismo e ação por danos morais contra o autor, que se refere aos índios como “bugrada”. O artigo afirma que os índios “se assenhoram das terras como verdadeiros vândalos, cobrando nelas os pedágios e matando passantes” e ainda os chama de “malandros e vadios”. O processo ainda esta tramitando, e a reparação pelo dano moral pode exceder R$ 30 milhões.

Não bastasse toda a discrimação, o MS é o estado com o maior número de detentos indígenas (148 no início de 2009, conforme divulgado pela imprensa), e casos recentes, como o da área conhecida como Kurusu Ambá, demonstram que a criminalização de lideranças já setornou uma estratégia na luta contra os índios.

Em novembro de 2009, pela quarta vez desde 2007, um grupo kaiowá de cerca de 250 indígenas ocupou a terra tradicional de Kurusu Ambá, de onde relatam ter sido retirados nos anos 70. A área fica próxima a Coronel Sapucaia, na fronteira com o Paraguai. Passaram a ser sistematicamente ameaçados por grupos de pistoleiros, com tiroteios diuturnos. Um mês depois, o corpo do jovem de 15 anos Osmair Fernandes foi encontrado com marcas de tortura e espancamento. Até hoje, o caso não está esclarecido. Meses antes, em maio, o líder Osvaldo Lopes tinha sido morto.

Em 2007, na primeira ocupação, já morrera a xamã Xurite Lopes. Meses depois, Ortiz Lopes, outra liderança, também foi assassinado. Três crianças morreram desde 2007 por falta de atendimento médico – a Funasa, alinhada com o governo do Estado, se recusa a prestar assistência nas áreas em disputa. Ninguém ainda foi preso pelas mortes dos quatro indígenas, mas quatro deles estão foragidos depois de terem sido condenados por roubo – em uma armação dos fazendeiros, segundo o grupo –, e outra liderança está sendo processada por ser o suposto autor de disparos que atingiram quatro de seus companheiros no final de 2007, num episódio em que mais de 50 pessoas assistiram ao momento em que dois fazendeiros dispararam contra os índios. Atualmente, a área está em estudo pela Funai, e os indígenas continuam ocupando uma pequena fração da terra. A tradução do nome Kurusu Amba, “lugar da cruz”, ganhou significado especial com tantas mortes.

Por conta desse grau de dificuldade com a Justiça, explica-se a transferência de MS para a cidade de São Paulo, a pedido do MPF, do julgamento dos quatro acusados pela morte do cacique Marcos Verón. Aos 72 anos, ele foi morto a pauladas em sua comunidade, Takuara, em 2003, supostamente a mando do proprietário da fazenda Brasília do Sul. O julgamento foi suspenso e deve ser retomado em 2011. Sua filha Dirce Verón afirma: “Meu pai foi morto porque era uma peça-chave na luta pela terra, uma liderança que incomodava os pecuaristas”.

Como tudo começou
A presença guarani-kaiowá na região sul de MS é registrada desde o início da colonização. As primeiras reservas para o grupo foram criadas na década de 1910, pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). O problema é que eram demarcadas conforme a conveniência dos brancos. As oito terras criadas somavam 18 mil hectares. À medida que o afluxo de colonos aumentou, os índios foram sendo pressionados a deixar as matas e entrar nessas áreas do SPI, ou ir para a beira da estrada. Muitos foram expulsos para o Paraguai, sob ameaças. Logo nos anos 80, as oito áreas antigas estavam superlotadas – Dourados, por exemplo, tem hoje mais de 12 mil pessoas em 3,5 mil hectares.

No mesmo período, os Guarani-Kaiowá organizaram sua resistência. Surgiu, então, o movimento conhecido como Aty Guasu, ou “grande reunião” (ver artigo nesta edição). A partir da união das dezenas de grupos locais, os indígenas conseguiram dar visibilidade para sua luta pela demarcação de suas terras, as quais chamam de tekoha – o lugar onde se pode viver conforme os costumes. Uma a uma, foram conquistando pequenas ilhas de terra: foram mais de 20, ao todo, hoje em diferentes estágios de regularização. Enquanto a solução vinha a conta-gotas, os problemas se acumulavam. A resistência dos fazendeiros se tornou cada vez mais violenta: de uns dez anos para cá, as mortes de indígenas durante as retomadas se tornaram frequentes.

Para tentar pôr fim aos problemas, de uma vez por todas, surgiu, em 2008, a iniciativa da Funai de lançar os tais GTs. O problema é que, além da oposição armada dos fazendeiros, os índios e a Funai têm de enfrentar a luta no Judiciário. São mais de 80 processos na Justiça Federal contra as demarcações. Para piorar, em ao menos um caso, o de Arroio Korá, homologada em dezembro de 2009, o ministro Gilmar Mendes desconsiderou que um grupo guarani fora alvo de esbulho e por isso não estava na área reivindicada por eles no ano de 1988 (marco temporal que, segundo o STF, determina se uma área pode ou não ser considerada terra indígena). Mas como estariam ali, se tinham sido expulsos pelos fazendeiros? Das três terras guarani-kaiowá homologadas por Lula em seu governo, duas tiveram a ocupação suspensa por liminar do STF. Além de Arroio Korá, há o caso da TI Nhanderu Marangatu, cuja liminar já completou cinco anos sem que haja sinal de que o caso será resolvido.

Resistência e tapetão
Não é apenas contra os indígenas que os fazendeiros reagem com truculência. Os integrantes dos grupos de identificação de terras têm sofrido ameaças. Em 2008, para solucionar o impasse, o presidente da Funai, Marcio Meira, chegou a fazer acordo com o governo do estado, atendendo – dado o poder de pressão do PMDB sobre o governo – à exigência de que seus representantes participassem das identificações de terra. Nem assim a situação se resolveu e, segundo Meira (leia entrevista nesta edição), o acordo não foi cumprido.

Com o objetivo principal de resolver o caso no MS, vem sendo costurada no Congresso a aprovação de uma Proposta de Emenda Constitucional que possibilite o pagamento de indenizações pela terra nua no caso de demarcações de terras indígenas – hoje, o pagamento é apenas pelas benfeitorias. Apesar das tentativas de utilizar essa reforma para “abrir a porteira” ao pagamento pelas terras a gente que expulsou comunidades e forma criminosa, ou mesmo se apropriou indevidamente de terras, o senador Eduardo Suplicy (PT), com a concordância da Funai e de muitos indigenistas, apresentou um texto alternativo, permitindo a indenização pela terra nua apenas em caso de títulos de boa-fé e que não envolvam esbulho. De qualquer forma, a discussão só deverá prosseguir em 2011.

Configura genocídio “intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso” (lei 2.889/56). As evidências demonstram que o que se está tentando fazer, direta ou indiretamente, é exterminar física e culturalmente os Guarani-Kaiowá. Até dezembro, as lideranças do grupo esperam que, pelo menos, os relatórios antropológicos de identificação de terras iniciados em 2008 sejam concluídos. Em agosto, o STF suspendeu a exigência de notificação prévia aos fazendeiros para que os grupos de trabalho pudessem visitar as áreas consideradas pelos indígenas como de ocupação tradicional. De qualquer modo, para além das demarcações de terras, ainda há uma longa batalha a travar, até que mude esse quadro de vergonhosa violação de direitos humanos.

Joana Moncau e Spensy Pimentel são jornalistas

Notícia

Notícia: É o relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social, como diz José Marques de Melo. A notícia são relatos de fatos relevantes escritos de forma objetiva e imparcial, no modelo da pirâmide invertida.


Ex 01:

Redação CORREIO


Associação de LGBT divulga carta a Dilma e Serra

Entidade reclama de preconceito, machismo e homofobia na campanha

A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), que representa 237 organizações, divulgou nesta sexta-feira (15) uma carta aberta aos presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). A carta reclama da forma como os direitos dos homossexuais vêm sendo tratados na campanha e destacam ações de Serra e Dilma em favor da causa.

A carta começa pedindo respeito aos presidenciáveis. “Nos dirigimos a ambas as candidaturas à Presidência da República para pedir respeito: respeito à democracia, respeito à cidadania de todos e de todas, respeito à diversidade sexual, respeito à pluralidade cultural e religiosa”.

O texto critica a utilização da discussão religiosa na campanha e reclama que “preconceito, machismo e homofobia” ganhem espaço no debate eleitoral. “Nos últimos dias, temos assistido, perplexos, à instrumentalização de sentimentos religiosos e concepções moralistas na disputa eleitoral. Não é aceitável que o preconceito, o machismo e a homofobia sejam estimulados por discursos de alguns grupos fundamentalistas e ganhem espaço privilegiado em plena campanha presidencial”.

A associação destaca que o estado brasileiro é laico e destaca avanços no combate à homofobia. A entidade enfatiza que sua luta é pela união civil de pessoas do mesmo sexo e pela criminalização da discriminação.

“Queremos ter o direito à igualdade proclamada pela Constituição Federal, queremos ter nossos direitos civis, queremos o reconhecimento dos nossos direitos humanos. Nossa pauta passa, portanto, entre outras questões, pelo imediato reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo e pela criminalização da discriminação e da violência homofóbica”, diz trecho da carta.

A entidade ressalta ações dos candidatos nos temas que interessam aos homossexuais. Sobre Serra, o texto afirma que o tucano implantou uma política progressista no combate à AIDS e destaca ações do governo Fernando Henrique Cardoso incluindo direitos dos homossexuais nos primeiros programas nacionais de direitos humanos. A associação destaca ações de Serra ainda como prefeito e governador.

Quanto a Dilma, a entidade afirma que ela “ajudou a coordenar o governo que mais fez pela população LGBT”. São destacadas ações como o programa “Brasil sem homofobia” e o “Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT”. A associação destaca ainda que Dilma assinou como ministra da Casa Civil a convocação da 1ª Conferência LGBT do mundo.

“Portanto, candidatos, não maculem suas biografias e trajetórias. Não neguem seu passado de luta contra o obscurantismo”, diz a carta. As informações são do G1.


Fonte: http://www.correio24horas.com.br



Ex 02:


Estudante assaltada têm seus objetos recuperados com a ajuda da polícia.


Na manhã do dia 12 de outubro de 2010, nas proximidades do Centro de Vitória da Conquista, a aluna do curso de comunicação social da UESB, Lilia Hendi Souza, 20 anos, foi assaltada por um menor de idade que levou seu celular e todo o dinheiro que possuía em mãos. Após o assalto, a estudante procurou imediatamente a unidade policial mais próxima para denunciar o ocorrido. Com as informações fornecidas por Lilia, os policias conseguiram reaver o seu pertence e os objetos roubados de outras pessoas.

O infrator a abordou enquanto caminhava por uma rua vazia próximo ao centro de Vitória da Conquista e exigiu que ela passasse o celular e todo o dinheiro que possuísse, após obedecer aos seus comandos, o jovem a orientou para que continuasse andando sem olhar para trás ou para os lados.

Auxiliada por um senhor que a encontrou chorando pelas ruas depois do incidente, a estudante de comunicação procurou o posto policial mais próximo e denunciou o assalto. Através da descrição que fez do assaltante, os policias conseguiram reconhecer o jovem, que atuava com freqüência naquela área.

Um policial que conhecia onde o assaltante morava, a levou até a residência do mesmo para fazer o reconhecimento. Constatado de que o rapaz em questão era de fato o assaltante, ele foi interrogado sobre os pertences da moça, pressionado, confessou que havia trocado seu celular por duas pedras de crack e o dinheiro havia usado para pagar o táxi que o levou de volta à sua casa.

Após uma visita na “boca” onde o meliante tinha feito a troca, os policiais conseguiram recuperar o celular roubado, enquanto a aluna espera na central. Junto aos seus pertences foram recuperados os de outras pessoas além de maconha e crack.

Nota.

Nota: É um informe sintético de um fato atual; as mensagens são transmitidas mediante frases diretas, quase telegráficas.

Ex 01:

É com extremo pesar que as Diretorias da ADUR-RJ, da APUF-PR e do ANDES-SN comunicam o falecimento do Prof. Mauro Flávio Meza Montalvo, do Departamento de Engenharia Agrícola da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), no último dia 24 de fevereiro.

Ex 02:
Entre os dias 19 e 21 de outubro acontecerá a Semana pela Democratização da Comunicação, no (UESB) Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

Definição de gêneros jornalísticos.

"Gêneros são classes de textos com propriedades comuns. São horizontes de expectativa para o leitor e modelos de escrita para o autor. Para lá dos propósitos classificatórios, taxonómicos, englobam claros propósitos de comunicação. É um sistema de regras que orientam a produção do discurso e o sentido que lhes é atribuído pelos receptores. Proporcionam referências precisas para a criação do texto, permitindo que esses realizem mais facilmente o processo comunicativo".
Mauro Wolf.


Nos próximos posts vamos tratar sobre os gêneros informativos: nota, notícia, reportagem e entrevista.